Como ler e escrever depois da Web
Por Marcelo Dalcom (marcelodalcom@msn.com)
Paulo Freire dizia que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, da mesma maneira que o ato de ler palavras implica, necessariamente, uma contínua releitura do mundo. Ao aprender a ler e a escrever o homem passa a compreender melhor seu contexto, linguagem e realidade. Partindo desse pressuposto muito mais que saber ler e escrever, o homem teve de aprender a decodificar o mundo. O conhecimento da língua não é o bastante para que seja efetivada a leitura, pois o analfabetismo não impede que uma pessoa possa dar sentido às coisas e acontecimentos.
A língua, ao longo dos anos, modifica-se sob várias influências. A última geração da escrita, que está na Internet, coloca questões que levam a repensar a relação entre o texto falado e o escrito e a considerar modos mistos e heterogêneos de construção. Não se pode negar que o diálogo escrito nas salas de bate-papo, no texto eletrônico, em forma de hipertexto, vem mudando de forma gradativa não só o suporte da escrita como também o perfil da língua padrão. Sobre o surgimento da escrita, Platão chegou a pensar que o mundo estaria perdido, pois todos aprenderiam a escrever e começariam a produzir também.
A cultura do texto eletrônico traz uma mudança no conceito de letramento. Diferentes espaços e mecanismos de produção, reprodução e difusão da escrita resultam em diferentes letramentos. Assim sendo, o momento atual oferece uma oportunidade extremamente favorável para refiná-lo e torná-lo mais claro e preciso. O mundo vive, hoje, a introdução na sociedade de novas e incipientes modalidades de práticas sociais de leitura e de escrita, propiciadas pelas recentes tecnologias de comunicação eletrônica. O computador sobrepõe diversas mídias (televisão, livro, rádio, telefone, fax, vídeo, cinema) em um sincretismo de formas e linguagens (verbal, oral, imagem) sem se reduzir a nenhuma delas. O novo não apaga o velho, mas ao incidir sobre ele recria-o, transforma-o.
A web é o lugar onde a comunicação tem de ser fluida e móvel, o que reforça um tipo de escrita mais informal e direta. Algumas características da escrita no ciberespaço e que a aproxima da realidade são as referências nas situações e não nas abstrações, diferente da escrita formal. A escrita na Internet é facilmente modificada pela agilidade e fluência da oralidade, mas ficam equilibradas aos usos práticos nas interações. São utilizados nessa forma de escrita não só palavras, mas também símbolos que podem enriquecer o significado.
Entretanto, novas convenções sobre redação on-line estão sendo desenvolvidas e aplicadas para tirar o melhor proveito dessa mídia. Não é apenas uma maneira de tornar a aula mais atraente e de tornar o acesso ao saber mais interessante. Com relação à informação, a Internet pode ser considerada a mais completa, abrangente e complexa ferramenta de aprendizado do mundo. Pode-se, através dela, localizar fontes de informação que, virtualmente, habilitam a estudar diferentes áreas do conhecimento. Sendo um meio que democratiza a cultura, de uma forma geral e é, ainda, um canal de construção do conhecimento a partir da transformação das informações pelos alunos e professores. Tem-se, então, um novo local de construção de conhecimento. Onde a aprendizagem cooperativa e o enriquecimento cultural poderão se tornar práticas cotidianas no contexto escolar, favorecendo a relação professor-aluno e o crescimento pessoal de ambos. A Internet pode vir a preencher a lacuna, estreitar o hiato deixado pela própria escola no quesito comunicação e expressão, dando um novo significado a essa disciplina. Cabe à escola, portanto ensinar a norma culta escrita sem menosprezar as demais modalidades da língua consideradas “erradas”, pelos puristas.
Os educadores se propõem a incluir novas tecnologias e diferentes linguagens no âmbito da escola, incorporando-as no dia-a-dia da sala de aula. À medida que, coletivamente, aprenderem a fazer seus próprios meios de comunicação, passarão a registrar e tornar conhecida a cultura de sua comunidade, as notícias e fatos que lhes dizem respeito. Hoje, o mundo inteiro está ligado e se comunica através da Internet. Isso faz com que milhares de pessoas se comuniquem diariamente usando, na maioria das vezes, um instrumento que estava sendo deixado de lado pela maioria das pessoas comuns: a língua escrita. Por meio de e-mails, chats e outros programas de comunicação, milhares de pessoas, todos os dias, trocam mensagens, piadas, fofocas, receitas, confidências pessoais, etc. Isto mostra que essas formas da linguagem virtual trouxeram de volta a necessidade do domínio e do manejo competentes da escrita (agora virtual, mas ainda “escrita”). É a chamada globalização da informação.
Mais do que nunca o mundo tornou-se uma aldeia global, onde seus povos estão se integrando usando como instrumentos os modernos meios de comunicação disponíveis. As pessoas trocam o antigo diário de adolescente pelo Blog, onde relatam seus cotidianos, amores, anseios, poesias, enfim, expressam seus sentimentos. E para isso as pessoas lançam mão de textos escritos e orais, ou diferentes recursos audiovisuais: fotografia, som e vídeo. Talvez resida aí um dos fascínios da Internet, essa possibilidade de se utilizar múltiplas linguagens para poder se expressar. A cultura pode e deve se transformar. A Internet veio para somar forças com o que já existia, ela não fará com que o livro desapareça. Quando perguntaram para o escritor Mário Quintana se os livros mudam o mundo, ele disse não, e completou, quem muda o mundo são as pessoas, os livros só mudam as pessoas.
Uma das funções da literatura é manter a língua como patrimônio coletivo, aceitando suas sugestões. Cada um lê com os olhos que tem, cada pessoa decodifica, percebe o mundo baseado em sua própria memória. Assim também é o hipertexto. Ao ler um texto, o homem se transforma em seu co-autor, vira o diretor e dirige a cena com a sua imaginação.
Baseado nisso, ao entregar um texto para duas pessoas, uma alfabetizada e outra não alfabetizada, ambas verão o mesmo texto, mas não necessariamente farão a mesma leitura. Isso porque suas sensações são idênticas e suas percepções, distintas. Não se aprende as sensações, tem-se e é tudo; enquanto a percepção pode ser educada. Educa-se musicalmente o ouvido, treina-se a vista, desenvolve-se o tato, apura-se o gosto e aperfeiçoa-se o olfato, mas não uma sensação. Reforçando a idéia de que antes de se aprender a ler as palavras, lê-se o mundo.
O homem, não pode ser desprezado, em hipótese alguma e muito menos se curvar diante de uma possível supremacia virtual, pois seria uma nova forma de servidão humana. O que difere o homem do computador é o fato de que o primeiro tem uma psique que o segundo, provavelmente não terá.



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